Pattinson Daily: UOL: "Indiana Jones" real que desapareceu na Amazônia brasileira chega ao cinema
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UOL: "Indiana Jones" real que desapareceu na Amazônia brasileira chega ao cinema

14 de fevereiro de 2017

O Brasil pode ter sido a sede de uma sofisticada civilização pré-colombiana, jamais devidamente estudada por exploradores. Essa era a crença do coronel britânico Percy Fawcett, arqueólogo que veio várias vezes à América do Sul, no início do século 20, onde, como uma Indiana Jones da Amazônia, enfrentou toda sorte de desafio na selva – até desaparecer nela, nos anos 1920. A história de Percy é agora narrada em The Lost City of Z, longa exibido no Festival de Berlim fora de competição, mas muito bem recebido pela crítica.

Dirigido por James Gray, o filme revisita esse personagem relativamente pouco conhecido, e que só agora protagoniza uma grande produção no cinema – muito embora, há quem diga que o herói imortalizado por Harrison Ford nos longas de Steven Spielberg possa ter sua gênese no espírito aventureiro de Fawcett.

Borracha e fronteiras
O filme começa em 1905, quando Fawcett é chamado pela Royal Geographical Society de Londres para ajudar a demarcar a fronteira entre Bolívia e Brasil – o local era de altíssimo conflito, já que disputado por diversos grupos interessados na extração do látex fornecido por seringueiras da região. Fawcett abandona temporariamente a mulher e os filhos e parte para a floresta.

Em meio a confrontos com indígenas arredios, rios repletos de piranhas sanguinárias, a fome e o tédio no meio da mata, o explorador encontra indícios materiais de uma civilização jamais conhecida. Descobri-la – e sua cidade-sede, que ele chama de Z – torna-se sua obsessão a partir dali, até sua morte, já na década de 1920, depois de desaparecer na mata (possivelmente em algum local de onde hoje é o Mato Grosso).


Colonialismo
Um letreiro no fim do filme diz que, dos anos 2000 para cá, mais e mais indícios têm sido encontrados dessa tal civilização, mostrando que as ideias de Fawcett não eram de todo um devaneio, como se pensou na época. Mas, segundo o diretor, isso não é o que mais importa. “A essência da história é mostrar um personagem que tenta escapar dos efeitos punitivos do sistema de classes”, disse Gray, em conversa com a imprensa.

Mais até do que o aspecto aventureiro de Fawcett, o que lhe interessou foi a possibilidade de mostrar o quanto a visão britânica de superioridade europeia em relação a outros povos era equivocada. “Fawcett se sentia uma pessoa inadequada [na Inglaterra]. O filme é relevante como nunca, porque não se pode simplesmente fechar um livro [sobre o passado] e ignorar que houve uma visão colonialista, que diferenciava as pessoas. Hoje, mais que nunca, é preciso pensarmos que somos todos feitos do mesmo barro. Por isso o filme é tão importante, e é uma pena que seja assim”, disse o cineasta.

Uma das preocupações de Gray foi não tratar os indígenas pelo viés do “exotismo” e menos ainda do eurocentrismo. “Há a presença de indígenas de quatro diferentes tribos, são atores fantásticos. Deixei-os se portar como eram. Fiz muita pesquisa sobre esses nativos, mas eu não queria fazer um filme antropológico. E sobretudo, não quis aquele olhar de quem diz: ‘Vejam, que pessoas interessantes’”, diz Gray.

“Muitas das áreas de mata da época são hoje plantações de soja, então, por mais fiel que eu desejasse ser, não queria que meu filme parecesse que foi rodado em Nebraska”, disse o diretor. A certa altura cogitou-se que o longa, que tem Brad Pit como um dos produtores, fosse filmado na Ásia, por razões logísticas, mas Gray se recusou a fazê-lo, em nome de uma maior autenticidade.

Aventura
O protagonista é vivido pelo britânico Charlie Hunnam, que disse que gostaria de ter tido tempo para conhecer os descendentes do personagem (atualmente, apenas uma neta de Fawcett segue viva). Nessa impossibilidade, contentou-se em entrar em contato com diversos documentos pessoais do explorador para compor a personagem.

“Filmamos na Colômbia, perto da fronteira com a Venezuela. Foi preciso ser bravo e aventureiro todos os dias”, disse Hunnam, emendando em seguida uma história algo cômica e exagerada, envolvendo aranhas e serpentes. “É estranho que eu nunca tenha ouvido nada disso!”, disse Gray, interrompendo a brincadeirinha do ator.

O elenco conta ainda com Robert Pattinson, que interpreta um dos membros da expedição, Sienna Miller, como a mulher dedicada (e com inclinações feministas) de Fawcett, e Tom Holland (o atual Homem-Aranha), como o filho do explorador que o acompanha em sua derradeira ida à floresta.

“Foi a experiência de maior imersão de toda a minha carreira”, elogiou Robert Pattinson. Em seguida, adicionou, com ar matreiro: “Este é o meu filme favorito, é óbvio!”. Ele aparece em cena com uma barba tão volumosa que talvez alguns demorem a reconhecê-lo; ele e Sienna Miller têm boas atuações. Hunnam também tem uma performance correta, mas falta ao seu explorador (e ao filme, como um todo) um elemento de obsessão, de “loucura”, que certamente o Fawcett original devia possuir.

James Gray é um dos diretores de maior prestígio do cinema hoje em dia – por isso, “The Lost City of Z” foi uma das principais atrações desta Berlinale (a primeira sessão para a imprensa ficou tão lotada que a organização do festival precisou providenciar uma exibição extra). O longa é de fato uma narrativa muito bem feita, algo épica, à moda dos grandes filmes antigos, como “Lawrence da Arábia” (1962), de David Lean.

Mas ao tratar uma personagem barroca como Fawcett pela via do classicismo, Gray sacrifica o potencial do material com que trabalha. O filme perde na inevitável comparação com outras obras sobre homens "civilizados" que se deixam levar pela insanidade ao entrar em contato com a floresta, como “Fitzcarraldo” (1982), de Werner Herzog, ou “Apocalypse Now” (1979), de Francis Ford Coppola.

“Não quis fazer um filme que repetisse os outros”, defende-se Gray. “E a verdade é que filmes como ‘Lawrence’ são, mas também não são uma referência... Você precisa ver esses filmes e logo esquecer, porque estão presos ao seu tempo. São inspirações, David Lean está lá no topo, mas... Não estamos mais em 1962!”, diz.