Pattinson Daily: Veja: Robert Pattinson dá uma bela interpretação em The Lost City of Z
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Veja: Robert Pattinson dá uma bela interpretação em The Lost City of Z

12 de junho de 2017

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Já está em cartaz há uma semana, mas, com algum atraso, vamos lá: é formidável a história do inglês Percy Harrison Fawcett, ex-oficial do Exército Imperial Britânico e cartógrafo que, em 1906, a mando da Royal Geographic Society (e do Império Britânico) foi o primeiro a se embrenhar na região pavorosamente inóspita e então completamente virgem que hoje compõe a fronteira entre Brasil e Bolívia. Era milagre que alguém saísse vivo desse tipo de expedição. Mas, depois de uns dois anos, a selva cuspiu Fawcett de volta, vivinho, com ótimos mapas em mãos, que evitaram uma guerra territorial entre os dois países – e picado pelo mosquito da obsessão. Obsessão pela própria selva amazônica e por vencer, na base da fibra física e moral, suas dificuldades inimagináveis. E obsessão pela ideia que ele começou a formar, apoiado em artefatos que achou e que juntou aos relatos dos primeiros colonizadores espanhóis do continente americano sobre uma El Dorado – uma majestosa cidade feita de ouro. Fawcett entendeu, claro, que El Dorado era lenda. Mas encasquetou que a lenda tinha uma origem, e que haveria, em algum lugar da Amazônia, as ruínas de uma cidade deixada por uma civilização extinta. E, como bom vitoriano, ele queimava com o desejo de ser o primeiro a encontrá-la. Essa é a história que o filme do diretor James Gray adapta do livro-reportagem de mesmo título do jornalista americano David Grann. Adapta e, infelizmente, empalidece.

É lógico que um filme de duas horas não pode conter todo tipo de minúcia que cabe num livro de mais de 300 páginas. É lógico também que, nesse processo de resumir, o filme vai ter de tomar algumas liberdades. Tudo isso faz parte, e é um prejuízo bem pequeno diante do benefício muito maior de apresentar à plateia um personagem tão singular. Só não creio que o resumo e as liberdades seguiram o melhor caminho possível. Primeiro porque o filme é lento, carente de emoção, e às vezes se arrasta mesmo – e no entanto deixa de fora um monte de detalhes interessantes que caberiam nele com facilidade se o roteiro fosse mais dinâmico. Segundo, porque o diretor e roteirista Gray escolhe tornar o Fawcett interpretado por Charlie Hunnam um homem quase agradável, quase simpático. Fawcett era mesmo um colosso de personalidade, de inteligência e de intento. Mas podia ser intragável, e era um osso duríssimo de roer – e existe algum outro osso capaz de sobreviver a inúmeras expedições de anos de duração à selva amazônica?

Percy Fawcett tinha uma resistência física extraordinária, e achava todos uns fracotes sem espinha em comparação com ele (exceção feita ao amigo e companheiro de expedição Henry Costin, numa bela interpretação de Robert Pattinson). Nunca guardava sua opinião para si: esfregava-a na cara dos presumidos fracotes a toda oportunidade. Lá estava o sujeito chacoalhando de malária, e tendo ainda de ouvir que a febre de 41 graus era mera frescura: toca marchar dez horas seguidas sem pausa para refeição. Fawcett não tinha dó de ninguém e submetia a todos – mulher, filhos, expedicionários, amigos – às exigências terríveis dos seus planos e obsessões. Tinha um ego monumental, e espumava de rancor ao menor arranhão a esse ego. Era competitivo ao ponto da irracionalidade, e de cara conseguiu fazer um inimigo do brasileiro Marechal Rondon, que também iniciara suas incursões à imensidão inexplorada (Rondon devolveu a antipatia na mesma moeda). E, a dada altura, perdeu o senso de perspectiva: quanto mais fantasiava com Z, a cidade perdida, mais confundia suas fantasias com o possível.

Meu ponto: não é preciso gostar de Fawcett para se fascinar com ele. Muito pelo contrário. Fawcett é fascinante por ter sido como foi, cheio de ardor e de injúria, de visão e de contradição, de virtudes que viravam defeitos ruinosos. É um tipo de ser humano que o mundo hoje tão esquadrinhado, na palma da mão do Google Earth, quase não é mais capaz de produzir. É um aventureiro prodigioso de uma era tomada pelo desejo de aventura. Lendo o livro de David Grann, me apaixonei pela teimosia e pela irascibilidade de Fawcett, pelas brigas que ele comprou, pela gente graúda com que ele foi bater cabeça sem nem pensar duas vezes. Admirei a maneira relutante – relutante mas muito admirável em um inglês do seu tempo – com que ele adquiriu algum respeito para com as tribos que encontrou. Mas Fawcett nunca perdeu seu senso de superioridade sobre elas, até porque nunca perdeu seu senso de superioridade sobre ninguém. Esse Fawcett até afável do filme, cheio de consciência ecológica e de consideração étnica – esse Fawcett que ouve a mulher, bate umas trilhas, passa um pouco de fome e aí mata um porco do mato e pronto, está salvo e bem-humorado de novo? Esse não é Fawcett. É uma representação politicamente correta do personagem real, agudamente preocupada com os ditames do que hoje se considera ser de bom tom. Fawcett não precisa ser desculpado por ser como foi, e sobretudo não precisa ser “melhorado”. Só precisa ser conhecido. Gostar dele não é fácil. Ms apaixonar-se por ele é quase inevitável.

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